TÍTULO: Em que Lacan poderia nos ajudar a repensar a fenomenologia?

Professor: Ronaldo Manzi sob a supervisão do Prof. Vladimir Safatle

Mais informações: manzifilho@hotmail.com

Período de Realização:  01/09 a 24/11/2016.
Horário: Quinta-feira, das 09:30 às 11:00.
Local: Prédio de Filosofia e Ciências Sociais – Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 – Butantã – SP, SALA A DEFINIR
2º Semestre de 2016
Disciplina Optativa
Destinada a: estudantes de filosofia, psicologia e demais interessados.
Pré-requisitos: não há
Carga horária: 18 horas (12 aulas de 01h30min cada)
  1. A) Objetivos
    É conhecido como a década de 1950 foi um momento crucial na experiência do pensamento francês: uma passagem ou um apagamento da fenomenologia e do existencialismo em prol do estruturalismo. São abundantes as páginas em que os “ditos” estruturalistas buscam se afastar do que eles compreendiam como uma filosofia da consciência (que teria em Edmund Husserl sua figura maior). Entretanto, não se trata de uma ruptura tão radical como se professa comumente. Não é difícil encontrarmos temas fenomenológicos nas páginas estruturalistas. Parece mais seguro afirmarmos que a tentativa dos estruturalistas é ir além de uma filosofia da consciência.
    Um exemplo notável desta tentativa nós encontramos na experiência de pensamento de Jacques Lacan se levarmos em consideração que ele foi o psicanalista que mais dialogou com a filosofia e que começou seu retorno a Freud, como ele denomina seus ensinos, meio a uma atmosfera fenomenológica na França. Sem dúvida nenhuma, a fenomenologia não lhe era estranha e não passou alheia à sua experiência intelectual.
    Entretanto, Lacan não se satisfaz com o desdobramento da fenomenologia enquanto uma filosofia da consciência para se pensar o campo da clínica. A seu ver, ela “não nos faz avançar muito”. Era preciso pensar de outro modo, levando em conta, principalmente, o desejo – algo que a fenomenologia teria pensado de forma muito limitada à consciência (a intencionalidade da consciência não parece dar conta do que Sigmund Freud propunha desde A interpretação dos sonhos).
    Num primeiro momento, iremos buscar entender o que se denomina uma filosofia da consciência para, logo em seguida, nos voltarmos à tese de doutorado de Lacan (1932) em que encontramos, ao mesmo tempo, uma aproximação e uma distorção da fenomenologia. Veremos também como o retorno a Freud exigiu uma releitura e mesmo um afastamento da fenomenologia e, principalmente, do existencialismo de Jean-Paul Sartre. Para isto, iremos nos deter num de seus textos mais importantes (O estádio do espelho como formador da função do Eu (1949)) e nos seus dois primeiros seminários (ministrados entre 1953 a 1955).
    De modo geral, podemos dizer que este curso visa mostrar uma relação próxima e, ao mesmo tempo, ambígua de Jacques Lacan com a fenomenologia focando as suas primeiras formulações. Nesta perspectiva, a fenomenologia parece ser um momento importante na sua experiência intelectual. Buscamos, afinal, avaliar se a fenomenologia foi “superada” pela psicanálise; e, se for o caso, avaliar quais ganhos poderíamos ter na filosofia a partir da perspectiva lacaniana. Nossa pretensão é mostrar como o diálogo entre a fenomenologia e a psicanálise, especialmente a psicanálise lacaniana, não se limita ao campo da clínica – ele parece ser atualmente revisitado por diversos pensadores no campo da filosofia. Não se trata, assim, apenas de “revisitar” um diálogo, mas de apontar sua atualidade e os impasses que este nos legou. Na verdade, este curso está inserido num debate que envolve um problema maior entre a filosofia e a psicanálise – um espaço que Bento Prado Junior denominou filosofia da psicanálise.

    B) Conteúdo:
    1) Aula 1 (01/09/16): Uma querela em torno da intencionalidade da consciência (Husserl e Freud)
    2) Aula 2 (08/09/16): Noções gerais do que seria a fenomenologia enquanto filosofia da consciência (parte I) (Husserl)
    3) Aula 3 (15/09/16): Noções gerais do que seria a fenomenologia enquanto filosofia da consciência (parte II) (Sartre e Merleau-Ponty)
    4) Aula 4 (22/09/16): Um primeiro diálogo com Lacan – apresentação da sua tese de doutorado (parte I)
    5) Aula 5 (29/09/16): Um primeiro diálogo com Lacan – a distorção lacaniana dos temas fenomenológicos (parte II)
    6) Aula 6 (06/10/16): Em direção ao inconsciente – o poder formativo da imagem (parte I)
    7) Aula 7 (13/10/16): Em direção ao inconsciente – um fenômeno clínico (a resistência) (parte II)
    8) Aula 8 (20/10/16): Em direção ao inconsciente – uma função inconsciente da consciência (uma releitura de Kojève) (parte III)
    9) Aula 9 (27/10/16): Da fala ao puro desejo – o inconsciente estruturado como uma linguagem (parte I)
    10) Aula 10 (03/11/16): Da fala ao puro desejo – desejo como pura negatividade (parte II)
    11) Aula 11 (10/11/16): Da fala ao puro desejo – a presença do grande Outro (parte III)
    12) Aula 12 (17/11/16): Em que Lacan poderia nos ajudar a repensar a fenomenologia?

    C) Atividades Discentes
    Leitura de textos e participação nas discussões.

    D) Critérios de Avaliação
    Participação nas aulas com presença mínima de 75% das aulas.

    E) Bibliografia
    BRENTANO, Franz. Descriptive Psychology. Trad. Benito Müller. New York: Routledge, 1995.
    ______. Psychologie du point de vue empirique. Trad. Maurice de Gandillac. Paris: Aubier, 1994.
    FREUD, Sigmund. Os chistes e a sua relação com o inconsciente (1905). Trad. sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
    ______. Conferências introdutórias à psicanálise (1916-1917). Trad. Sergio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
    ______. A interpretação dos sonhos (1900). Trad. sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
    ______. Introdução ao narcisismo, Ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010b.
    HEIDEGGER, Martin. Os problemas fundamentais da fenomenologia. Trad. Marco Antônio Casanova. Petrópolis: Vozes, 2012a.
    ______. Seminários de Zollikon. Trad. Gabriella Arnhold; Maria de Fátima de Almeida Prado. Petrópolis: Educ; ABD; Vozes, 2001.
    ______. Ser e Tempo. Trad. Fausto Castilho (edição bilíngue). Campinas: Editora da Unicamp, 2012b.
    HUSSERL, Edmund. Autour des Méditations cartésiennes (1929-1932) – Sur l’intersubjectivité. Trad. Natalie Depraz ; Pol Vandevelde. Paris: Jérôme Million, 1998.
    ______. A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental – uma introdução à filosofia fenomenológica. Trad. Diogo Falcão Ferrer. Rio de Janeiro: gen ; Forense Universitária, 2012a.
    ______. A ideia da fenomenologia. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1986.
    ______. Idées directrices pour une phénoménologie et une philosophie phénoménologique pures (livre second) – Recherches phénoménologiques pour la constitution. Trad. Éliane Escoubas. Paris: PUF, 2004.
    ______. Idées directrices pour une phénoménologie et une philosophie phénoménologique pures (livre troisième) – La phénoménologie et les fondements des sciences. Trad. Arion Kelkel. Paris: PUF, 1993a.
    ______. Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica – Introdução geral à fenomenologia pura. Trad. Márcio Suzuki. Aparecida: Ideias & Letras, 2006.
    ______. Investigações Lógicas – Prolegômenos à lógica pura. Trad. Diogo Ferrer. Rio de Janeiro: Forense, 2014b.
    ______. Investigações Lógicas: segundo volume, parte I. Trad. Pedro Alves, Carlos Morujão. Rio de Janeiro: Forense, 2012b.
    ______. Investigações Lógicas – Sexta Investigação – Elementos de uma Elucidação Fenomenológica do Conhecimento. Trad. Željko Loparić; Andréa Maria Altino de Campos Loparić. São Paulo: Nova Cultural, 1996a.
    ______. Leçons pour une phénoménologie de la conscience intime du temps. Trad. Henri Dussort. Paris: PUF, 2013a.
    ______. Meditações cartesianas e Conferências de Paris. Trad. Pedro Alves. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013b.
    ______. Notes sur Heidegger. Trad. avec le concours du Centre National des Lettres. Paris: Les Éditions de Minuit, 1993b.
    ______. L’origine de la géométrie. Trad. Jacques Derrida. Paris: PUF, 1962.
    ______. Problèmes fondamentaux de la Phénoménologie. Trad. Jacques English. Paris: PUF, 1991.
    HYPPOLITE, Jean. Figures de la pensée philosophique – Tome I et II. Paris: PUF, 1991.
    JASPER, Karl. Psicopatologia Geral, Vol. I. Trad. Samuel Penna Aarão Reis. São Paulo: Livraria Atheneu, 1973.
    KOJÈVE, Alexandre. Introduction à la Lecture de Hegel. Paris: Gallimard, 2005.
    LACAN, Jacques. Écrits. Paris: Seuil, 1966.
    _____. Le mythe individuel du névrosé – ou poésie et vérité dans la névrose. Paris: Seuil, 2007.
    ______. De la psychose paranoïaque dans ses rapports avec la personnalité – suivi de Premiers écrits sur la paranoïa. Paris: Seuil, 1975.
    ______. Le Séminaire I – Les Écrits Techniques de Freud (1953-1954). Paris: Seuil, 1975.
    ______. Le Séminaire II – Le moi dans la théorie de Freud et dans la technique de la psychanalyse (1954-1955). Paris: Seuil, 1978.
    ______. Le Séminaire III – Les Psychoses (1955-1956). Paris: Seuil, 1981
    ______. Le Séminaire IV – La Relation d’Objet (1956-1957). Paris: Seuil, 1994.
    ______. Le Séminaire V – Les formations de l’inconscient (1957-1958). Paris: Seuil, 1998.
    LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Trad. colaboradores de Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1970.
    LHERMITTE, Jean. L’Image de Notre Corps. Paris: L’Harmattan, 1998.
    MERLEAU-PONTY, Maurice. Causeries – 1948. Paris: Éditions du Seuil, 2002a.
    ______. Merleau-Ponty à la Sorbonne – résumé de cours (1949-1952). Dijon: Cynara, 1988.
    ______. Parcours (1935-1951). Paris: Verdier, 1997.
    ______. Phénoménologie de la Perception. Paris: Gallimard, 1967.
    ______. Le Primat de la Perception – et ses Conséquences Philosophiques. Paris: Verdier, 1996a.
    ______. Sens et Non-Sens. Paris: Gallimard, 1996b.
    ______. Signes. Paris: Gallimard, 2000b.
    ______. La Structure du Comportement. Paris: Quadrige/PUF, 2002b.
    ______. L’Union de l’Âme et du Corps chez Malebranche, Biran et Bergson. Paris: Vrin, 2002c.
    MOURA, Carlos Alberto Ribeiro. Crítica da Razão Fenomenológica. São Paulo: Nova Stella/USP, 1989.
    POLITZER, Georges. Critique des fondements de la psychologie. Paris: PUF, 1968.
    SARTRE. Une idée fondamentale de la phénoménologie de Husserl: l’Intentionnalité. In: Situations I. Paris: Gallimard, 1947.
    ______. L’Être et le Néant – Essai d’ontologie phénoménologique. Paris: Gallimard, 2006.
    ______. L’existentialisme est un humanism. Paris: Nagel, 1946.
    ______. A Imaginação. Trad. Luiz Roberto Salinas Fortes. Rio de Janeiro, 1989.
    ______. L’Imaginaire – Psychologie Phénoménologique de l’Imagination. Paris: Gallimard, 1948.
    ______. La transcendance de l’ego. Paris: VRIN, 2003.
    SAUSSURE, Ferdinand. Cours de Linguistique Générale. Paris: Payot, 1949.
    WALLON, Henry. Les Origines du Caractère chez l’Enfant. Paris: Quadrige/PUF, 2002.